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Sabores escondidos: os refúgios gastronômicos que resistem à gourmetização em São Paulo

  • Foto do escritor: Marianna Mello
    Marianna Mello
  • 11 de mai.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 25 de mai.

Em meio ao avanço da chamada “gourmetização” em São Paulo, onde restaurantes apostam em estética elaborada e preços elevados para atrair o público, ainda existem espaços que seguem na contramão dessa tendência. Espalhados pela cidade, estabelecimentos como o Restaurante Syria, a Casa Pretal e o Mug Café mantêm propostas baseadas na tradição, no acolhimento e na identidade cultural, mostrando uma São Paulo paralela construída pela memória, pela imigração e pela resistência gastronômica.

Restaurante Syria, localizado na Av. São João, 1248 - Santa Cecilia, no Centro de São Paulo
Restaurante Syria, localizado na Av. São João, 1248 - Santa Cecilia, no Centro de São Paulo

Em uma cidade como a de São Paulo, a variedade gastronômica e culinária é parte do cotidiano dos moradores da metrópole. A maioria desses estabelecimentos possui uma decoração “instagramável” e preços além do esperado, em um contexto marcado pela chamada “gourmetização”.

Porém, existem alguns estabelecimentos que seguem um caminho diferente, espalhados entre galerias, casas antigas em bairros residenciais ou comerciais, ruas pouco movimentadas e imóveis comerciais. Esses lugares contam uma história marcada pelo afeto, identidade, cultura, tradição e resistência nessa selva de concreto. Alguns desses espaços são o Restaurante Syria, a Casa Pretal e o Mug Café, que revelam uma São Paulo paralela formada pela imigração, cultura, memória e força.


A tradição árabe no centro paulistano


Em meio ao Centro de São Paulo, um lugar onde o passado ainda se faz presente nos dias de hoje, o Restaurante Syria vem atravessando quase uma década mantendo viva a tradição da culinária libanesa. Fundado no ano de 2018, o restaurante se encontra em um lugar discreto, simples e pouco chamativo, mas faz sucesso pela experiência gastronômica, acessibilidade além de manter as clássicas receitas libanesas, o que acaba mantendo uma clientela fiel e nova ao mesmo tempo, que transforma o espaço em parte da memória afetiva da cidade.


Shawarma de carne, duas esfihas de queijo e um doce libanes.
Shawarma de carne, duas esfihas de queijo e um doce libanes.

Os preços acessíveis são o foco principal do Syria, onde ele é resistente à gourmetização, mantendo aquilo que sempre conquistou seus frequentadores desde o início, uma comida tradicional sem extravagância. O cardápio contém esfihas abertas e fechadas de R$10,00 a R$20,00, pratos executivos de R$50,00 até R$60,00 como o falafel, shawarmas de R$30,00 e doces de somente R$10,00.


Sua ambientação é simples, com mesas próximas ao balcão e uma decoração minimalista mas com grande significado cultural. A maioria de seus frequentadores são trabalhadores da região central, curiosos e clientes fiéis, que procuram uma comida caseira e saborosa, sem preços exorbitantes, o Syria se tornou um símbolo de permanência dentro de uma cidade repleta de tradições e mudanças.


Interior do restaurante Syria


O Syria representa mais do que apenas um restaurante, ele simboliza uma cidade construída pela imigração, pela tradição de uma cultura complexa que ainda sofre no imaginário social e pela resistência de pequenos estabelecimentos que sobrevivem, mesmo vivendo em tempos onde o que se considera valorizado é um espaço de consumo rápido e de um visual chamativo.


Interior do Restaurante Syria
Interior do Restaurante Syria

Enquanto diversos restaurantes procuram se modernizar mudando sua identidade e até sua culinária, o Syria aposta na simplicidade e na memória de um povo que continua lutando para pertencer.


O pertencimento da cultura negra em um bairro branco


A Casa Pretal se destacou nas visitas por valorizar a cultura negra e sua história, inaugurada em dezembro de 2025, o local virou ponto de encontro para pessoas pretas que buscavam um ambiente acolhedor. Idealizada pelos irmãos Rafael e Thiago Machado, com o amigo Lucas MD e o pai dos irmãos, a casa une gastronomia, música e acolhimento. “A gente caçava lugares e nunca encontrava um lugar assim, um ambiente mais acolhedor, um ambiente onde a gente pudesse sentar, comer, trocar um papo, e com uma música boa”, comenta Raphael.


Donos da Casa Pretal, Raphael Machado, Lucas MD e Thiago Machado
Donos da Casa Pretal, Raphael Machado, Lucas MD e Thiago Machado

A proposta da casa vai além de ser vista como apenas um bar ou restaurante, o espaço também promove palestras, movimentos sociais, networking e eventos culturais que promovem a cultura negra. Segundo os irmãos o objetivo era preencher uma lacuna que ainda persiste na cidade e na sociedade nos tempos de hoje. “Então a gente quer abranger todos os nichos e a gente sabe que está no caminho porque está carente, o nosso povo está carente de um lugar bom, um lugar assim”, explicam.


O maior desafio foi a escolha do local, a ideia inicial era o bairro Casa Verde (Zona Norte de SP), mas, somente após meses de procura eles acharam o ponto atual. “Quando a gente encontrou esse lugar, a gente viu um potencial muito grande (...). Parece que foi uma coisa de Deus. E a gente só foi colocando o nosso gosto”, diz Raphael.


Fachada da Casa Pretal, localizada na R. Camilo, 717 - Vila Romana
Fachada da Casa Pretal, localizada na R. Camilo, 717 - Vila Romana

A decoração mistura o estilo industrial e moderno em uma casa antiga, com cadeiras e poltronas, iluminação baixa e referências históricas. “Porque a gente queria que as pessoas ligassem a cultura negra com a nossa casa”, resume Raphael.


Mesmo sendo localizada em bairro majoritariamente branco, a Casa Pretal tem encontrado espaço para crescer e consolidar seu público. Para Thiago, apesar de ser um desafio estar em um lugar considerado desfavorável para eles e seu nicho, isso traz ainda mais importância para o projeto. “Um dos desafios de estar aqui, onde a gente está nesse endereço, é que é um bairro totalmente branco. Então a gente está em um lugar totalmente desfavorável para nós. E o que tem sido da hora, o que tem sido legal, é que mesmo a gente sendo desfavorecido, a casa está dando muito certo. A casa está acontecendo”


Salão de dança da Casa Pretal
Salão de dança da Casa Pretal

Na cozinha, o cardápio aposta em hambúrguer que variam de R$35,00 a R$58,00, já as porções e entradinhas ficam entre R$35,00 e R$55,00, na parte de bebidas convencionais e os drinks autorais o preço parte de R$6,00 e vai até R$45,00.

Lanches Malcom X e Harriet Tumban, drink Spike Lee
Lanches Malcom X e Harriet Tumban, drink Spike Lee

Mais do que apenas um estabelecimento, a Casa Pretal é um símbolo de resistência, acolhimento e pertencimento de um povo que contém uma cultura vasta e compõem boa parte da cidade e do país, mas que ainda é marginalizado no imaginário social.


Cafés especiais e a socialização entre pessoas


O mais escondido e sofisticado dentre os três estabelecimentos, o Mug Café, fundado em 2019, tem a proposta de uma experiência voltada aos cafés especiais com foco em produtos saudáveis e orgânicos, além de ter um ambiente intimista e estética minimalista, o que acaba atraindo estudantes, trabalhadores home office e cliente que procuram um lugar mais tranquilo para passar o tempo ou levar algum acompanhante.

Mug.Sp Café unidade Paulista, localizada na Av. Paulista, 1079 - Bela Vista
Mug.Sp Café unidade Paulista, localizada na Av. Paulista, 1079 - Bela Vista

O cardápio conta com cafés filtrados, expressos, bebidas geladas, doces, opções de brunchs e um cardápio diferente para o almoço. Os cafés variam de R$9,00 e R$17,00, enquanto brunches e pratos mais completos podem ultrapassar os R$50, já as sobremesas ficam na faixa de R$15,00 e R$20,00. Sendo o cardápio mais caro da lista, mas que pela experiência local, vale a pena dar uma chance.


A parte principal do Mug Café não é somente a comida, mas sim a estética e a ambientação, com uma iluminação mais suave, móveis mais minimalistas e uma atmosfera pensando no conforto e tranquilidade.


O Mug resgata a ideia do convívio entre pessoas e uma experiência gastronômica que vale a pena ir para conhecer pelo menos uma vez.


Combo American Breakfast
Combo American Breakfast

Resistência a gourmetização em meio à cidade


Apesar de todos eles terem diferenças estruturais, culturais e gastronómicas, os três estabelecimentos compartilham algo em comum, a resistência da padronização da gourmetização. Em vez de focar nas tendências, esses espaços prezam pela identidade, pelo acolhimento e pela culinária.


Em uma São Paulo marcada por mudanças, novidades e restaurantes que visam mais os números em redes sociais, lugares assim seguem existindo longe dos olhos de todos, sendo sustentados pela memória, cultura e pertencimento de clientes que enxergam a gastronomia como algo que vai além do consumo rápido e de uma foto publicada.

 
 
 

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