Rita de Cássia: a força de uma mãe solo que encontrou refúgio na cozinha após um trauma
- Raquel Gonçalves

- 9 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 25 de mai.
Maria Rita de Cássia Martins Viana, de 52 anos, é baiana, moradora do Jardim Ponte Alta I, em Guarulhos (SP), mãe de santo, cozinheira e mãe solo. Foi na cozinha que ela encontrou refúgio após um trauma que transformou sua vida: o filho partiu para a guerra na Ucrânia e, há quatro meses, ela não recebe notícias dele. “Foi e está sendo uma terapia”, conta.

Rita cresceu em uma família baiana ligada à culinária e carrega essa memória afetiva desde a infância. Em São Paulo, chegou a manter um comércio na região da República, no centro da cidade, mas deixou o espaço devido à insegurança e às dificuldades do local. Formada em enfermagem e estética, ela afirma que foi na cozinha que encontrou seu verdadeiro lugar. “A cozinha é tudo para mim”, diz.
Rotina, trabalho e sustento
A rotina de trabalho começa por volta das 6h da manhã e pode se estender até o fim da tarde, dependendo da demanda. Rita prepara refeições para clientes da região e, com frequência, atende pedidos fora do cardápio e do horário habitual. “Para a pessoa não ficar sem, eu faço comida fora do cardápio e envio”, conta. Na prática, o dia não termina quando o trabalho acaba, ele apenas se transforma.
A renda obtida com a produção de marmitas é hoje sua principal fonte de sustento. Ela já tentou se formalizar como Microempreendedor Individual (MEI), mas enfrentou dificuldades no processo burocrático e acabou desistindo da formalização. Ainda assim, segue trabalhando de forma autônoma.
A produção diária varia entre cerca de 15 e 20 marmitas, garantindo o sustento da casa e mantendo a rotina intensa. Segundo Rita, o retorno dos clientes é o que a mantém ativa: “Os elogios e o retorno me mantêm de pé.”
A cozinha e o ritual do cotidiano
Em dias de feijoada, especialmente quando o preparo é feito para a sexta-feira à noite, a organização começa ainda na véspera. Rita realiza o dessalgue das carnes, trocando a água várias vezes ao longo do dia, além de separar e higienizar os acompanhamentos. Ela afirma que faz questão de manter tudo limpo e organizado durante o processo, como parte do seu método de trabalho.
Além da cozinha, a espiritualidade ocupa um papel central em sua vida. Mãe de santo na Umbanda, Rita integra a fé ao cotidiano do trabalho, especialmente em rituais e festas religiosas. Em dias de feijoada, por exemplo, ela afirma que o preparo vai além da alimentação.
"Minhas mãos estão desde o assentamento de Exu até a feijoada de Ogum" conta Rita Cássia.
Para ela, cozinhar envolve intenção, cuidado e conexão espiritual. “Em dias de feijoada, peço a Ogum que me guie”, completa.

Rita se define como “três Ritas”: Existem três Ritas: Rita de Oyá, Rita dona de casa e mãe Rita cozinheira.
Mesmo com a rotina intensa, mantém atividades físicas como academia e pilates. “Se eu fico parada, até adoeço”, afirma.
Informalidade e sobrevivência econômica
Segundo o economista Deivid Cruz, muitos pequenos empreendedores do ramo alimentício desistem da formalização como MEI devido à instabilidade da renda e à percepção de que a burocracia e os custos acabam não compensando os ganhos imediatos.
Em negócios de subsistência, como a produção de marmitas, a prioridade costuma ser a sobrevivência financeira diária, fazendo com que a formalização fique em segundo plano.
Cruz também aponta que muitos desses trabalhadores atuam de forma autônoma e dependem exclusivamente dessa renda, principalmente em regiões periféricas, onde o acesso ao mercado de trabalho formal é mais limitado. Nesse contexto, atividades informais acabam se tornando uma alternativa mais acessível de geração de renda.
Apesar da flexibilidade oferecida pela informalidade, o economista ressalta que essa condição também dificulta o acesso a direitos previdenciários, crédito e maior estabilidade financeira, mantendo muitos trabalhadores em situação de vulnerabilidade econômica.
Cozinha como memória, cultura e identidade
A relação com a comida atravessa sua história familiar e cultural. O historiador Massimo Montanari afirma que a alimentação transforma produtos naturais em cultura por meio de técnicas, valores e rituais sociais. Já a chef e pesquisadora Tainá Marajoara amplia essa leitura ao definir cultura alimentar como um conjunto de saberes que envolve espiritualidade, ancestralidade e modos de vida.
Na prática, essa dimensão se materializa na trajetória de Rita, onde cozinha, fé e trabalho se entrelaçam.

Vida, espera e futuro
Rita mora e trabalha no mesmo espaço, o que faz com que as fronteiras entre casa e sustento se misturem no cotidiano. Ainda assim, sonha em abrir o próprio negócio, que pretende chamar de Tempero da Rita.

No centro de tudo, porém, permanece a ausência do filho, Luís. Enquanto espera por notícias, Rita segue cozinhando, sustentando a rotina entre o trabalho, a fé e a espera. No Jardim Ponte Alta I, o fogão continua aceso entre sustento, espiritualidade e a tentativa de seguir em frente diante do que ainda não tem resposta.




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